sábado, 4 de abril de 2009

Pé-Preto - Breve História do Groove.

Pé-Preto - Torre Malakoff


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"Quem tem groove, tem tudo"

Ao contrário do que os puristas pensam, o Groove salvou o Jazz nos anos 70. O gênero sempre teve como principal característica a de englobar outros gêneros, às vezes tão dispares que se tornaram misturas quase inimagináveis. Punk, Soul, Mantras, Bossa, tudo foi engolido pelo Jazz e pela curiosidade abençoada de seus representantes. Ainda assim, sempre foi forte a resistência que alguns músicos sofreram por aproximarem-se de outros estilos. Sem perceber, modernizavam a velha música norte-americana e abriam um campo de experimentações que ainda é aproveitado por todo mundo que faz música.

 

O Funk uniu-se ao Jazz já em meados dos anos 60, embora o rastro disso possa ser percebido lá para trás, quando o grande Jimmy Smith reinventou o órgão e tornou popular o chamado Soul-Jazz. Afinal, se antes do Funk precisou aparecer o Soul, antes do Jazz-Funk precisou aparecer o Soul-Jazz. Sempre usando bases de blues para criar texturas mais suaves de improvisos em cima das melodias surgidas, desde os boppers até à moderna música negra do final dos anos 50 e começo dos 60 – ou seja, o Soul de Ray Charles, James Brown e Sam Cooke –, os organistas foram os principais personagens do desenvolvimento desse novo Jazz. É claro que pianistas como Horace Silver e Bobby Timmons, entre outros, serviram de base para a criação desse groove jazzístico, mas foi quando Smith entrou na parada que o ritmo pegou.

 

Os discos do final dos anos 50 gravados por Smith estão presos ao Hard-Bop. Acompanhado de bandas numerosas que incluíam feras como Lee Morgan, Lou Donaldson, Art Blakey e Kenny Burrel, apresentava canções do Bep-Bop, fortemente influenciadas por Charlie Parker, com longos improvisos. Ainda assim são discos cheios de grooves maravilhosos como 'Cool Blues', 'House Party' e 'The Sermon' e já mostram raízes do que Jimmy faria logo depois. Em 1960 aparece 'Back At The Chicken Shack', gravado apenas em quarteto, com Stanley Turrentine no sax tenor. O disco define de vez a fórmula perfeita do groove no Jazz, ou melhor, no Soul-Jazz.

Depois vieram vários outros belos trabalhos do músico, e os organistas começaram a pipocar com ótimos discos. Seguindo o exemplo de Jimmy Smith, surgiram Richard "Groove" Holmes, Big John Patton, Jimmy McGriffi, Jack McDuffy, Lonnie Smith e Shirley Scott. Ao mesmo tempo, outros instrumentistas aproximavam o Soul do Jazz e davam mais força à mistura dos estilos contemporâneos com o antigo gênero. Cannonball Adderley, Lou Donaldson, Stanley Turrentine, Lee Morgan, Donald Byrd, Grant Green eram os representantes mais significativos.

 

Injeção de Funk

 

O trompetista Lee Morgan foi um dos primeiros a injetar Funk em sua música. Em 1963, com 'The Sidewinder', ele reuniu um time de primeira para solar por cima de uma base empolgante, que já lembrava muitas coisas que James Brown estava fazendo. Herbie Hancock foi outro pioneiro nessa área. Senão o que dizer de 'Watermelon Man' e 'Cantaleoup Island'?

 

Conforme o movimento pelos direitos civis dos negros crescia nos EUA, os músicos iam se envolvendo com as novas formas de expressão da classe. E era o Funk que eles queriam. James Brown já não fazia mais o mesmo som do começo de sua carreira e os primeiros a perceberem isso foram os músicos de Free-Jazz, mais exatamente o saxofonista Archie Shepp. Ninguém havia flertado tão abertamente com o Funk até que ele gravou, em 1966, a música "Mama Too Tight", no disco de mesmo nome. Acompanhado apenas por baixo, bateria e uma seção de sopros com músicos de Avant-Garde, a canção de pouco mais de cinco minutos é Funk do começo ao fim. Pesada, com groove poderoso, pronta para botar qualquer um para dançar, eliminava qualquer amarra que ainda existisse nas experiências de Lee Morgan e Herbie Hancock.

Ao mesmo tempo, os organistas que haviam investido no Soul-Jazz, abriam-se cada vez mais para a influência do Funk. Lonnie Smith é o autor de uma obra-prima do gênero. 'Live At Club Mozambique' é um pedardo da primeira à última faixa. Gravado em 1970, mostra definitivamente que o Jazz já havia absorvido os grooves de grupos como Sly And The Family Stone. Jimmy Smith, após passar uma temporada gravando com Big Bands ou fazendo releituras de Prokofiev, também voltava seus dedos ao Funk.

 

Porteira Escancarada

 

Nesta mesma época, a influência do Rock crescia dentro do Jazz. Mais uma vez o radicalismo de Miles Davis entrou em ação e dividiu o mundo dos jazzistas. 'Bitches Brew' é de 1969, e foi catalogado sob a alcunha de Fusion. Apesar de não ter sido o primeiro disco no gênero, já que um ano antes Tony Willians gravou 'Emergency!' (ao lado de John McLaughlin na guitarra e Larry Young no órgão), foi 'Bitches Brew' que deu visibilidade ao movimento. Unia, além do funk, o rock ao jazz. Foi duramente criticado e também abriu a fase de ódio de muitos ex-fãs de Miles Davis, mas também foi o disco que escancarou definitivamente a porteira para que todos assumissem essas novas influências. O Jazz havia chegado aos anos 70!

 

É exatamente em 1970 que o trompetista Freddie Hubbard grava os dois melhores discos de sua carreira e marcos do Jazz-Funk. Atuando com os mais prestigiados músicos de Jazz dos anos 60 – John Coltrane, Herbie Hancock, Ornette Coleman, Oliver Nelson – ele passeou por todos os estilos surgidos na década, exibindo um virtuosismo comparado ao do prematuramente falecido Clifford Brown.

Após gravar durante anos pela Blue Note e pela Impulse, Freddie foi chamado pelo produtor Creed Taylor quando esse inaugurou seu selo, o CTI Records (uma das mecas do Jazz-Funk no início dos 70). Seu primeiro álbum na nova gravadora foi 'Red Clay', um disco arrasador com cinco músicas que reuniam os melhores músicos da época. É difícil apontar a melhor música. Todas são sensacionais e imprimem um Jazz-Funk tocado com virtuosismo e solos devastadores, inclusive na versão para "Cold Turkey" de John Lennon. O lançamento em CD ainda trás como bônus uma apresentação ao vivo da faixa título, com outra formação tão competente quanto a que a gravou em estúdio, e mais de dezoito minutos de duração.

 

'Red Clay' tem um disco-irmão. Lançado poucos meses depois, 'Straight Life' preserva quase a mesma formação do anterior. Joe Herderson no sax, Herbie Hancock no teclado, Ron Carter no baixo, George Benson da guitarra e, na única troca do disco, Jack DeJohnette na bateria em substituição a Lenny White. Mais uma vez é o exemplo perfeito de como o Funk deve ser adicionado ao Jazz elétrico. São apenas três músicas que se encaixam perfeitamente às do álbum anterior.

 

Foi outro trompetista que gravou um dos trabalhos de destaque no gênero. Donald Byrd era um músico saído do Hard-Bop é já havia começado a flertar com o Funk desde meados dos anos 60. Em 'Black Byrd', de 1972, ele assume definitivamente a evolução capitaneada por Miles Davis e injeta R&B à fórmula que já havia desenvolvido. O disco, lançado pela Blue Note, traz algumas faixas com vocal e vários músicos novos, acostumados a essa nova sonoridade negra, dentre os quais um baixista chamado Wilton Felder.

Esse músico estabelece a conexão com o organista Jimmy Smith, que no mesmo ano lançou o monumental 'Root Down', pela Verve, com Wilton no baixo. O disco, gravado ao vivo, é o que apresenta os melhores Grooves que o músico já produziu. Sua banda, também formada por jovens, é afinada tanto ao blues quanto ao Funk. Além de três originais de Smith, o álbum tem uma versão explosiva de "Let’s Stay Together" de Al Green, e direcionou radicalmente a carreira do organista para o Jazz-Funk. Nele, Jimmy Smith toca de forma brutal, com alguns de seus melhores solos, e uma base que ampliava consideravelmente o Soul-Jazz que ele mesmo havia desenvolvido uma década antes. Tornou-se o disco mais famoso dele depois que os Beastie Boys samplearam a faixa título no disco 'Ill Comunication', de 1994. Porém, o Jazz-Funk, até aqui, era musical e puro, isto é, sem o mesmo envolvimento político e o desenvolvimento cerebral que mais uma vez Miles Davis, Archie Shepp e Rashan Rolank Kirk aplicaram em seus discos de 1972.

 

Carandiru Norte-Americano

 

O saxofonista Archie Shepp conseguiu unir toda a tradição da música negra, desde Duke Ellington ao Avant-Garde, passando pelo Blues e o Gospel, com o Funk contemporâneo. 'Attica Blues', gravado em 1972, foi impulsionado por um caso envolvendo uma rebelião de 1300 prisioneiros de uma prisão no oeste do estado de Nova York, uma espécie de Massacre do Carandiru norte-americano. Após sete dias de negociações, a polícia invadiu o local e deixou 43 mortos, entre eles, 10 carcereiros. A prisão chamava-se Attica, e daí o nome do álbum. Nele, Shepp comanda uma Big Band com metais, cordas e vários vocalistas. Boa parte das músicas são cantadas e variam desde o mais agressivo e dançante Funk ("Attica Blues" e "Blues For Brother George Jackson") às baladas mais lamentosas ("Steam Pt.1 e 2"). Muitas vezes, a veia Free-Jazz do saxofonista aparece e cria orquestrações delicadamente atonais e cheias de beleza.

Mas o lamento de Archie Shepp não tinha acabado por aí. Pouco tempo depois ele aparecia com outra obra-prima. 'The Cry Of My People' reúne, com poucas variações, o mesmo time de músicos. Mais uma vez as orquestrações são ricas e conduzem o Jazz Avant-Garde a um outro nível de composição, unindo os Spirituals, os Blues, e mais uma vez, o Funk, num mesmo álbum. Além de conter ainda algumas faixas com vocal, apresenta uma linda versão para "Come Sunday", de Duke Ellington. Ambos os discos são, mais do que simples música, manifestos lamentosos de um povo ruma à liberdade.

 

Liberdade da qual Miles Davis já havia conquistado há tempos, pelo menos em termos musicais. Após entrar nos anos 70 com a fusion e gravar um disco de rock como 'Tribute To Jack Johnson', o trompetista resolveu que era hora de deixar os improvisos em segundo plano e privilegiar os Grooves. Foi daí que surgiu 'On The Corner'. Diferente de seus outros trabalhos, esse disco tem uma base de baixo e bateria que salta aos ouvidos antes de qualquer individualismo. A primeira canção, com quase vinte minutos, é uma suíte funk em quatro partes. Cada solista dá sua contribuição eletrificada, mas é um poderoso Groove que conduz cada um deles e que se destaca. A fórmula se repete na última faixa, ainda mais comprida e encorpada. Como já era característica de Miles nessa época, a psicodelia é garantida em cada uma das quatro músicas.

Um passo além também foi dado por Rashan Roland Kirk. Tendo se estabelecido desde os anos 60 como um dos mais originais saxofonistas de sua geração, Kirk tinha um timbre único e era capaz de improvisações imprevisíveis tocando até dois saxofones de uma só vez. Ele também sempre se interessou pelas outras formas da musicalidade negra, e buscou até no continente africano uma identidade ímpar para sua música. Em termos de Jazz-Funk, o melhor resultado do músico é o álbum 'Blacknuss'. São no total 11 canções que englobam alguns clássicos do Soul como "Ain’t No Sunshine", "My Girl” e uma medley que une "What’s Going On" com "Mercy Mercy Me". Cada interpretação de Kirk é uma pedrada tocada de forma particular. As músicas, mesmo reconhecíveis, ganham formas surpreendentes em suas mãos e tornam-se expressões complexas dos dois mundos da música contemporânea: o Pop e o Jazz.

 

O clássico 'Head Hunters', de Herbie Hancock, é outro acontecimento importante. O pianista já há tempos fazia experimentações com teclados e sintetizadores, unindo cada vez mais seu Jazz aos espertos Grooves do Funk. Utilizando a influência dos grupos mais piscodélicos, o disco, lançado em 1973, colocou mais uma vez Hancock entre a vanguarda do Jazz da época.

 

Outros músicos ainda estabeleceram uma linha diferente de utilização do Funk dentro do Jazz. Foi o chamado Free-Funk. Tinha como principal idealizador o saxofonista Ornette Coleman – que já havia inventado o Free Jazz – e a colaboração de seu guitarrista James Blood Ulmer. Ele propunha um conceito complicado de harmonia, utilizando os Grooves de forma caótica, com quartetos duplos solando por cima. Depois outros seguiram essa linha, implantando mudanças cada um a seu estilo. Assim como a maioria dos discos aqui relacionados assustou os puristas, cativou quem estava propicio às mudanças e influenciou várias gerações que se seguiram.


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Gostaria muito de creditar o autor desta matéria, contudo, recebi isto de um amigo por email e não tenho a menor idéia de quem tenha escrito isso.

Abraços.

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